Segurança tem de ser discutida com sociedade, defende pesquisador
O governo federal não dialoga
com a sociedade civil para elaborar políticas na área
de segurança pública. É o que aponta um estudo
do Núcleo de Estudo da Violência da Universidade
de São Paulo (USP). “São políticas
muito fechadas, concebidas muitas vezes estritamente no âmbito
das instituições envolvidas. A população
é muitas vezes alvo da política, da intervenção
dos órgãos de segurança, mas é muito
pouco ouvida”, destaca um dos coordenadores do estudo, Fernando
Salla.
O pesquisador ressalta que as organizações de defesa
dos direitos humanos, por exemplo, são vistas como “empecilhos”
e não como entidades colaboradoras que fazem um trabalho
de monitorar a implementação adequada das políticas
públicas. “Isso dificulta uma política transparente,
dificulta a própria responsabilização de
agentes públicos envolvidos com irregularidades, dificulta
a avaliação dos impactos efetivos das políticas
púbicas”, diz.
Salla afirma ainda que as políticas de segurança
pública não reconhecem os direitos dos cidadãos.
“Elas não estão efetivamente preocupadas em
trazer o cidadão para o que a gente poderia chamar de contrato
social. Constantemente, ao longo de toda a nossa história
republicana, é impressionante os níveis de arbitrariedade
praticados pelas instituições de segurança
em relação ao cidadão, que vão desde
abuso de autoridades, práticas de tortura e prática
de maus tratos. Isso tanto nos regimes autoritários, quanto
nos regimes democráticos”, avalia o pesquisador.
A falta de diálogo do governo com a sociedade civil ocorre
pela inexistência de um órgão gestor de segurança
pública no Brasil, considera o sociólogo Benedito
Domingos Mariano. “A Secretaria Nacional de Segurança
Pública deve ser transformada em um ministério porque,
assim, a União se sente protagonista do debate nacional
de segurança pública. Dessa forma, seria estabelecido
um órgão gestor para pensar permanentemente a questão”,
afirma Mariano, que foi ouvidor da Polícia do Estado de
São Paulo na gestão de Mário Covas (PSDB)
e secretário municipal de Segurança Urbana, em São
Paulo, na gestão de Marta Suplicy (PT).