Porteiro ideal
Empresas de segurança estão dando aulas de
prevenção e comportamento dentro de condomínios
para funcionários e moradores. O objetivo é
criar uma sintonia entre donos de imóveis e a pessoa
que controla a portaria para reduzir os riscos de assaltos.
Os condomínios residenciais voltaram a ser alvos
de criminosos e trouxeram à tona uma antiga discussão
em relação à falta de segurança.
Afinal, de quem é a culpa? Especialistas são
unânimes em dizer que o principal facilitador de assalto
é o morador, que não cumpre regras de prevenção
para priorizar o seu conforto. E este, por sua vez, aponta
o porteiro, acusando-o de não ficar atento à
movimentação no entorno do empreendimento,
mesmo tendo à disposição uma parafernália
de equipamentos eletrônicos.Na verdade, todos têm
uma parcela de responsabilidade. Estatísticas demonstram
que, em 90% dos casos, a invasão acontece pela porta
da frente, quer seja pela passagem de pedestres ou pela
garagem. Para tentar reduzir esses riscos e formar a portaria
ideal, empresas especializadas estão realizando cursos
de prevenção e comportamento dentro dos condomínios,
destinados a funcionários e a donos de imóveis.Segundo
o presidente da Associação Brasileira das
Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança
(ABESE), Carlos Alberto Progianti, uma das grandes preocupações
do setor é em relação à falta
de treinamento das pessoas que operam os equipamentos. "A
máquina é a parte inteligente da segurança,
mas quem vai operar o mecanismo é o homem. Então,
é preciso encará-la como ferramenta de trabalho
que vai auxiliá-lo a detectar aquilo que os seus
olhos não percebem", comenta Progianti. Ele
lembra que não adianta ter equipamentos de última
geração se, no momento de risco, o homem não
sabe tomar a decisão adequada para evitar o perigo
ou reduzir os seus efeitos. "A culpa não é
do porteiro", defende Paulo Roberto Ferrari, presidente
do Sindicato dos Empregados de Edifícios Comerciais
e Residenciais de São Paulo. Segundo ele, os profissionais
não têm tempo de se reciclarem. "A maioria
dos condomínios não permite a reciclagem em
horário de expediente e, para baratear os custos,
ainda prefere terceirizar os serviços de portaria.
Por conta disso, cresce a rotatividade de funcionários
e, com ela, também as chances de chegarem às
mãos de criminosos informações sobre
a rotina do empreendimento", explica ele.
TERCEIRIZADOS
Segundo Ferrari, um estudo de 2010 do sindicato mostra que
a cada dez assaltos, oito ocorreram em condomínios
com portaria terceirizada. "Além de não
criarem vínculos com moradores para facilitar o cumprimento
das regras de segurança, funcionários terceirizados
não são de total confiança."O
empresário e consultor em segurança Ricardo
Chilelli também é contra a terceirização.
"É uma medida boa apenas economicamente, porque
reduz os gastos com encargos trabalhistas. Porém,
em termos de segurança, é péssima",
diz. Segundo ele, porteiro tem de ser contratado pelo condomínio,
com carteira assinada, para os moradores não se deparem
todos os dias com pessoas diferentes invadindo sua privacidade
ou controlando entrada e saída. Hubert Gebara, vice-presidente
de administração imobiliária e condomínios
do Sindicato da Habitação (Secovi), também
é favorável à contratação
de funcionários. Porém, diz que isso não
pode ser imposto, pois é uma decisão do moradores
do local. Na semana passada, um edifício de luxo
foi assaltado no Morumbi e não tinha sequer porteiro.
Para Gebara, há outras prioridades para reforçar
a segurança, como a instalação de câmeras
na área externa do condomínio e portões
duplos funcionando de forma coordenada na garagem. O Secovi
planeja ainda implantar um sistema de comunicação
por rádio entre condomínios, para um acionar
a polícia caso o outro seja invadido. Outra medida
é reeditar o manual de segurança em condomínios,
com novas informações de policiais civis e
militares, com o objetivo de prevenir ação
de quadrilhas ou saber como agir em caso de assalto.
PROJETO NA PLANTA
Segundo o consultor Ricardo Chilelli, condomínios
modernos para os quais presta serviço estão
fazendo o projeto de segurança na planta do imóvel,
para baratear os custos. A empresa também se encarrega
da seleção, contratação, treinamento
e reciclagem dos funcionários do empreendimento.
Chilelli lembra que um projeto de segurança somente
funciona se obedecer o tripé básico que inclui
tecnologia, pessoal especializado e comportamento. "Os
três precisam atuar de forma simultânea. Se
um deles falhar, tudo está perdido." O consultor
afirma ainda que é necessário haver consenso
entre os moradores sobre as regras de segurança do
condomínio para que elas sejam obedecidas por todos.
Reciclagem deve ser feita a cada 2 meses
Consultor em segurança, o empresário Ricardo
Chilelli afirma que não basta qualificações
profissionais para ser um bom porteiro. O importante, diz
ele, é fazer reciclagens frequentes, a cada dois
ou três meses. "Isso é necessário
porque o profissional, com o tempo, acaba baixando a guarda
e se acomodando." Nessas aulas, Chilelli costuma simular
situações de risco para testar a rapidez e
a perspicácia do profissional.
37.000 é o número de condomínios na
cidade de São Paulo.